Uma interessante característica da pessoa ignorante é que ele sempre tem certeza "absoluta".
Uma vez recebi um cargo em um instituto e pedi ao meu coordenador que estivesse por perto para me ajudar durante as minhas certezas. Ele perguntou - por quê durante as certezas?.
Porque quando eu tiver dúvidas, certamente vou perguntar.
segunda-feira, 15 de março de 2021
domingo, 29 de abril de 2018
Tiradentes e o Mito do Herói
A∴G∴D∴G∴A∴D∴U∴
Todos
os anos, em 21 de abril, é rememorado o dia do enforcamento de
Tiradentes, tido como herói e mártir da Inconfidência Mineira, um
dos principais movimentos de contestação do poder que a coroa
portuguesa exercia sobre o Brasil Colônia (FERNANDES, 2016) e um dos
ensaios do processo de Independência do Brasil.
Tiradentes
era o apelido de Joaquim José da Silva Xavier, um alferes, cargo
militar da época colonial, equivalente ao Tenente da atualidade, e
que também exerceu a profissão de dentista. Participou ativamente
da Inconfidência Mineira, movimento que se articulou entre os anos
de 1788 e 1789 e foi permeado por ideias provindas do Iluminismo que
se alastrou pela Europa, na segunda metade do século XVIII.
Conforme
a narrativa do Prof. Cláudio Fernandes:
“Os inconfidentes de Minas
Gerais geralmente integravam, com exceção de poucos, a elite
cultural e social daquela região (como o poeta Tomás Antônio
Gonzaga) ou então ocupavam postos militares ou exerciam profissões
liberais, como o próprio Tiradentes. O que dava unidade ao grupo
eram ideias como a de liberdade e igualdade (ideias essas que também
fomentaram a Revolução Francesa, em 1789), além do anseio pela
emancipação e independência com relação à Coroa Portuguesa, à
época governada pela rainha D. Maria, “A louca”.
Os planos de insurgência
contra o governo local em Minas, representado pelo Visconde de
Barbacena, foram articulados em 1788 e tiveram como estopim a
política de cobrança de impostos sobre a produção aurífera e
sobre os rendimentos que ganhava cada pessoa que compunha a população
de Minas Gerais. Esse último imposto era conhecido sob o nome de
“derrama”. Apesar de terem uma organização bem elaborada, os
inconfidentes foram delatados por Silvério dos Reis, um devedor de
tributos que, com a denúncia, acreditava poder sanar suas dívidas
com a coroa.
Todos os inconfidentes foram
presos. Tiradentes foi apanhado no Rio de Janeiro. O processo
estabelecido contra eles e os subsequentes julgamentos e sentenças
só terminaram em 1792, no dia 18 de abril. Os principais líderes
receberam a pena do banimento, isto é, foram expulsos do país.
Tiradentes, ao contrário, foi enforcado no dia 21 de abril ao som de
discursos que louvavam a rainha de Portugal. Seu corpo foi
esquartejado e sua cabeça exibida na praça principal da cidade de
Ouro Preto.
Evidentemente, o dia da morte
de Tiradentes por muito tempo foi compreendido como o dia em que um
rebelde foi morto, como típico exemplo de retaliação absolutista.
Entretanto, após a Independência do Brasil e, principalmente, após
a Proclamação da República (época em que o Brasil, já
desvinculado de Portugal, procurava construir sua identidade
nacional), a imagem de Tiradentes começou a ser recuperada e louvada
como um dos heróis da nação ou como um dos que primeiramente
lutaram (até a morte) pela liberdade.

Um exemplo dessa imagem foi a
instalação, em 1867, do primeiro monumento a Tiradentes na cidade
de Ouro Preto. Outro exemplo, o mais notório, foi a confecção, por
parte do pintor Pedro Américo, do quadro “Tiradentes Esquartejado”
em 1893, época em que a República recém-instituída procurava os
mártires e os patronos da “Nação Brasileira”. O Tiradentes de
Pedro Américo traduz a imagem idealizada do martírio, que se
aproxima do martírio de Cristo.
Essa visão republicana de
Tiradentes permaneceu no imaginário popular dos brasileiros, e de
certo modo ainda permanece. Em 1965, durante a primeira fase do
regime militar no Brasil, o marechal Castelo Branco, então
presidente da República, contribuiu para o reforço dessa imagem de
Tiradentes sancionando a Lei Nº 4. 897, de 9 de dezembro, que
instituía oficialmente o dia 21 de abril como feriado nacional e
Tiradentes como Patrono da Nação Brasileira. ”
É
preciso destacar, antes de irmos mais adiante, a responsabilidade do
historiador na transcrição das memórias. Segundo Keith Jenkins1,
“baseado nos documentos ou outras fontes históricas, o pesquisador
transforma aquele objeto em uma narrativa - a história depende dos
olhos e da voz de outrem: vemos por intermédio de um intérprete que
se interpõe entre os acontecimentos passados e a leitura que dele
fazemos”.
E a
verdade pode se apresentar de diversas formas, através dos inúmeros
enredos de seus narradores, também influenciados pelo momento
histórico em que foi escrito e a ideologia vigente. Vejamos algumas
dessas vertentes da “verdade”.
Segundo
Joaquim Norberto1,
Tiradentes era:
“[...] feio, ignorante,
falastrão, pobre, inconveniente, que foi admitido nos meios
inconfidentes e ainda, por irresponsabilidade, colocou tudo a
perder”.
Segundo
seus críticos, essa imagem de Tiradentes provém do fato de Norberto
ser monarquista, amigo do Imperador D. Pedro II e almejar algum
título nobiliárquico.
Entretanto,
segundo a obra do historiador Silva Jardim, em 1890, Tiradentes era:
“Um homem alto, magro, porém
musculoso, de largas espáduas, cabelos a meio encanecidos a
caírem-lhe anelados, fisionomia impressionadora, notável o olhar,
cheio de estranha vida [...]. Era eloquente em suas palavras e
gestos, e muitas vezes ungia-lhe o entusiasmo. O trato insinuante e
lhano, de modo a cercar-se de relações, expansivo e rude a ponto de
afugentar o tímido e penetrar os másculos. Não era belo”.
Percebemos
duas imagens desenhadas com motivos políticos. Uma desqualificando e
outra enaltecendo o personagem.
Varnhagem,
considerado o “pai” da história do Brasil, proveniente de
família monarquista, descreveu Tiradentes como “bastante alto e
muito espadaúdo, de figura antipática, feio e espantado e incapaz
de ter recebido a tarefa de ser o propagandista da conjuração”.
O
então Governador de Minas Gerais, Visconde de Barbacena, ao saber
sobre os planos de uma revolução do inconfidente, disse: “só se
for uma revolução de meretrizes. Deem nesse maroto com um chicote.
Ele é um bêbado”.
Outra
narrativa ainda pode ser encontrada nos “Autos da Devassa”:
“Era audacioso, conseguiu
melhor contato com seu comandante. E, um dia, firme e corajosamente,
abordou o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade sobre
a Conjuração Mineira. A atitude causou forte estranheza ao chefe
das tropas, pois não supunha aquele subordinado capaz de tamanha
afoiteza, conforme declarou em seu depoimento à Devassa (MURY,
1993:65) ”.
E
usando as palavras de Carlos Ballarotti:
Explica-se Tiradentes sob
várias faces: o mártir símbolo republicano, o sacrificado como
Jesus Cristo, o “bode expiatório”, o líder da Conjuração
Mineira, o louco e o falastrão, o revolucionário inspirado nos
ideários americano e francês, o antipático e ignorante, o
expansivo e letrado e quantas mais imagens aparecerem sobre o herói.
Seria importante hoje saber
qual dessas imagens é a verdadeira?
A questão não é saber se
Jesus foi crucificado, depois ressuscitado, mas de se compreender
como é possível tantos homens ao nosso redor crerem na crucificação
e na ressurreição.
Da mesma forma, não é
importante saber se Tiradentes era líder ou “bode expiatório”
da Inconfidência, mas verificar como é possível que tantos homens
acreditem que ele é um herói”.
Conclusão
Alguns
pesquisadores modernos, ditos revisionistas, muitos dos quais
defensores da volta da Monarquia, buscam desfazer o mito de
Tiradentes. É certo que sua história se apresenta controvertida e
cheia de lacunas. Mas o que vale mais, a mensagem ou o mensageiro?
Precisamos
perceber o ideal por trás do mito. O ideal de liberdade e de
resistência contra o absolutismo, a tirania, o modelo de
colonização, escravidão e exploração.
Foi
assim com a lenda de Buda contra o Bramanismo; Jesus contra o Império
Romano; Maomé, o unificador e redentor das tribos árabes, contra as
injustiças sociais e religiosas de sua época; Gandhi contra o
domínio Britânico.
O
mito e o símbolo cumprem a função de complementar a linguagem e
fazer chegar o significado da mensagem até o inconsciente do homem.
“Por existirem inúmeras
coisas fora do alcance da compreensão humana é que frequentemente
utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que
não podemos definir ou compreender integralmente” - Jung, 1961.
O
herói é um símbolo, que possui fórmula definida, segundo Jung:
como o ser de nascimento humilde, mas milagroso; provas de sua força
sobre-humana precoce; sua ascensão rápida ao poder e à
notoriedade; sua luta triunfante contra as forças do mal; sua
falibilidade ante a tentação do orgulho e; seu declínio, por
motivo de traição ou por um ato de sacrifício “heroico”, no
qual sempre morre.
Assim
foram as narrativas sobre Hércules, Ulisses, Aquiles e Heitor.
Alexandre Magno, César, Osíris, Hórus. Ainda o Gilgamesh
babilônico, o Rei Arthur ou o Sansão traído por Dalila. E tantos
outros heróis de todas as tradições.
O
indivíduo precisa desse esquema como fórmula para encontrar e
afirmar sua personalidade, tanto quanto a sociedade como um todo
necessita estabelecer uma identidade coletiva.
Esses personagens divinos são
representações simbólicas da psique total, entidade maior e mais
ampla que supre o ego da força que lhe falta. [...] é atribuição
essencial do mito heroico desenvolver no individuo a consciência do
ego – o conhecimento de suas próprias forças e fraquezas – de
maneira a deixá-lo preparado para as difíceis tarefas que a vida
lhe há de impor.
Uma vez passado o teste
inicial e entrando o indivíduo na fase da maturidade da sua vida, o
mito do herói perde a relevância. A morte simbólica do herói
assinala a conquista daquela maturidade (JUNG, 1961)3.
Mesmo
que o indivíduo amadureça a tal ponto de descartar as fantasias,
crenças, lendas e mitos, a sociedade em geral precisa cultivar ditas
lendas como suporte pedagógico para seu desenvolvimento psicológico
e político-social.
Acredito
que um dos problemas do Brasil, assim como da maioria dos seus
vizinhos latino-americanos, é a diminuta quantidade de heróis que
os inspire e lhes dê esse suporte subliminar ou subconsciente.
Precisamos
de mais figuras como a de Tiradentes, personificando os valores
básicos para a formação de uma sociedade mais justa. Seu mito é
um símbolo para o profano e um grande ensinamento para os iniciados,
mantendo vivo em nossa memória que desde aquela época um grupo de
homens se reúne para combater o despotismo, os preconceitos e os
erros, para glorificar a Verdade e a Justiça, assim como para
promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos à
Virtude e cavando masmorras ao vício.
E
são esses valores que cultuamos e rememoramos no dia 21 de abril∴
Or∴
de Curitiba, 20 de abril de 2016.
Daniel de Queiroz Barbosa∴
M∴
M∴
Referências:
BALLAROTTI, C. R. A construção do mito de Tiradentes: de
mártir republicano a herói cívico na atualidade.
Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade Estadual
de Londrina. Londrina. 2009.
BLOG Monarquia Já. Disponível em <http://imperiobrasileiro-rs.blogspot.com/>.
Acesso em 03/04/2016.
Brasil. LEI Nº 4.897, DE 9 DE DEZEMBRO DE 1965. Sítio da Câmara
dos Deputados, em
<http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4897-9-dezembro-1965-368995-publicacaooriginal-1-pl.html>. Acesso em 03/04/2016.
FERNANDES, Cláudio. "21 de Abril - Dia de Tiradentes".
Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/tiradentes.htm>.
Acesso em 03 de abril de 2016.
GOMES, Laurentino. BLOG Laurentino Gomes. Disponível em <http://www.laurentinogomes.com.br/>.
Acessado em 11/04/2016.
JUNG, C.G. O homem e seus símbolos. 2ª edição especial.
Nova Fronteira, 2008.
2 Joaquim Norberto de Souza Silva, autor de História da Conjuração
Mineira, publicada em 1873.
3 O homem e seus símbolos, cap. 1 – Chegando ao inconsciente.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Adeus, meu Pai!
Vai, Reinaldão!
Vai descansar!
Tô indo aí para um
último velar!
Obrigado por nossas
vidas sacudir e todo o tempo ensinar.
Em todos os
momentos, os bons e os ruins, você sempre foi o nosso PAI.
Obrigado PAPAI pela
intensa jornada até aqui!
Olhai por nós aí do
outro lado. Envie suas bênçãos. Vamos sempre precisar!
Um beijo!
Que Deus te acolha
e te guarde!
Daniel.
domingo, 21 de janeiro de 2018
Netos...
"Netos são como heranças: você os ganha sem merecer, sem ter feito
nada para isso. De repente lhe caem do céu. Sem se passarem as penas do amor,
sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. O neto é,
realmente, o sangue do seu sangue.
Com a idade chega a saudade de alguma coisa que você tinha e que lhe
fugiu sutilmente junto com a mocidade. Meu Deus, para onde foram as crianças?
Transformaram-se naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos,
que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não
encontra de modo algum suas crianças perdidas. São homens e mulheres... não são
mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da
gestação ou do parto, o doutor lhe coloca nos braços um bebê.
Completamente grátis.
Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades,
símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é
devolvido.
E o espanto é que todos lhe reconhecem o direito de o amar com
extravagância.
Tenho certeza de que a vida nos dá netos para compensar de todas as
perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vem
ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e
diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão no forno!”
Rachel de Queiroz
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Ser jovem é
Ser jovem é...
A juventude é uma embriaguez sem vinho...
Uma erupção de vida...
Um tsunami de emoções...
Um jardim de sensações e nem sempre de delícias...
Uma promessa para o futuro e ao mesmo tempo uma jornada de incertezas...
Uma obra sem engenheiro. Um roteiro sem referência, escrito em pleno voo.
A saída da toca do Coelho e a travessia do mar vermelho.
Não importa o porto seguro ou a terra prometida.
Toca Raul! Toca Raul!
E boa jornada!
Daniel.
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